23h03

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Sinopse: Vivian, casada e mãe de dois filhos trabalha em uma clínica para crianças especiais; sempre preocupada, e bondosa com as pessoas, ajudaria quem quer que fosse preciso. Mas em um dia, que acordou com o pé esquerdo, descontou a raiva em quem nunca desejaria: Julian... Garoto doce, inteligente, seu criador preocupou-se em criá-lo perfeitamente, tirando-lhe uma pequena coisa... Nunca sairá uma palavra dele. E então, para recompensar sua consciência o adotou. Michelle, filha de Vivian, reacendeu seu humor ao conhecê-lo. Criaram juntos meios para poderem se comunicar, mandando cartas um ao outro, parecendo-lhes que moravam tão longe, mas a única passagem que os impediam era a parede que dividia o quarto ao lado... Mandavam também “Boa Noite” ao outro através do código Morse. Tudo seguia bem até que o verdadeiro pai de Julian apareceu, e as coisas começaram a se complicar.

1

São Paulo, 1997.

- Mãe, o que há nessa caixinha? –Falara Bianca, seus olhos azuis brilhantes, encarando-a com um ar curioso. Tinha apenas 13 anos, tão doce, mas com uma curiosidade inquietante.

-Vou contar-lhe uma história, querida.

Barcelona, 1984.

-Michelle... Ah, Michelle! Quando será um pouco compreensiva com todos nós?

-Poupe-me com todo esse drama, mãe.

-Eu estou lhe pedindo. São só alguns dias! O que eu mais poderia ter feito?

Michelle cruzou os braços, inconformada. A mãe suspirou revirando os olhos já sem argumento algum.

-Tiro seu castigo.

-Fechado.

Michelle e sua mãe, Vivian. Não se davam muito bem, eram bastante diferentes. A visão do caráter humano de cada era um tanto desigual.

Vivian trabalhava em uma casa de reabilitação para pessoas especiais. Michelle não admitia que sua mãe pudesse ser extremamente bondosa com todos, não que isso seja ruim, mas a tornava besta para certas coisas. Por dar confiança demais em quem quer que seja. Michelle cria que a qualquer momento, se um mendigo lhe pedisse alguma moeda, ela o levaria para jantar em casa.

E então, esse dia que tanto temia chegou: Sua mãe trouxe alguém consigo.

Eis a seguinte explicação por decidir trazê-lo:

Vivian precisava levar algumas roupas para concerto. Estava um pouco irritada por uma briga besta que tivera com Michelle mais cedo, então entrou na primeira casa avistada; havia um garoto como atendente fazendo algumas anotações, perguntou-lhe:

-Por favor, gostaria de saber quanto fica este montante.

Ele continuou com a cabeça abaixada, fazendo suas devidas anotações. Ele a fitou por um momento, curioso sem entender se estava realmente falando com ele.

-Sim, sim! Você mesmo. O que é não pode falar?! –Ela empurrou seu braço.

Ele então a olhou, com um ar desentendido, e fez um sinal de “espere” com as mãos e saiu. Ela já irritada, resmungou:

-Mal educado! Não poderia me responder?

Então, ela percebeu que todos a olhavam de olhos arregalados, censurando-a.

Voltou uma mulher mais velha, com um olhar sério:

-Algum problema, senhora?

-Vocês têm um atendente muito mal educado. Nem ao menos, quis me responder.

-A senhora sabe onde está não? Esta é uma casa onde as crianças do orfanato Lírio do Vale nos ajudam. Julian é mudo, ele nunca poderá responder-lhe por mais que quisesse ajudar.

Vivian ficou pasma, sem saber o que dizer... Como poderia ter sido tão rude com uma criança? Nunca tinha passado por tamanho constrangimento. Pediu desculpas, acarretou suas coisas e saiu, sem qualquer reação.

Não dormiu aquela noite pensando no garoto, esperou amanhecer e voltou ao local perguntando pela senhora mais velha com o olhar sério. Ela compareceu.

-Voltou? O que quer?

-Você é a responsável pelas crianças?

-Certamente. Por que a pergunta?

-Eu gostaria de adotar Julian. Sinto-me péssima pelo ocorrido, não conseguiria viver com esse peso na consciência. Preciso retribuir, e esse seria o mínimo que ele deve merecer.

-Como devo saber que posso confiar em você? Julian é um garoto muito especial. Nos dois sentidos. Tanto por ser “diferente” quanto por ser muito inteligente e bondoso.

-Eu moro aqui perto. Poderá visitá-lo e ver como está todos os dias. Ele poderá vir aqui, e continuar o trabalho se preferir. Apesar de não precisar, o que receber claro, fica com ele.

-Julian precisa mesmo de uma família, ele já tem 17 anos e ninguém nunca o adotou... Quando nasceu procedente de uma mãe pobre e viciada em qualquer tipo de droga, lícita, ilícita, permitida ou proibida; o deixou para ignorar as despesas que teriam por ser especial. Entretanto o entregou ao mundo, foi passado de mão em mão tanto sujas quanto limpa, até chegar aqui. Graças a Deus, não sei o que seria dele hoje se não tivessem o mandado. Consequentemente chegou um pouco mais velho, os pais preocupam-se em procurar apenas por crianças novíssimas. Quanto mais crescem, mais vão perdendo as esperanças, coitadas.

- Oh, coitado... Mas então! Dê-me esta chance. Por favor, Senhora... Fible, certo?

Nome estranho, Vivian pensou. Tanto faz.

- Sim, sim. Passe no orfanato às 05h00min desta tarde. Assinará alguns papeis, mas deixe para pegá-lo amanhã para poder se despedir das outras crianças. Oh, sentiram sua falta... Já estou até vendo, todas irão querer dormir com ele no mesmo chão.

- Hahaha. Eu espero que dê tudo certo à relação entre minha família, e principalmente a nós dois.

E assim, Julian pôde finalmente dar um “Oi” ao seu novo lar.

2

Um tanto bom quanto belo garoto com mero 17 anos, branco da cor semelhante à neve, os olhos azuis refletiam mais brilhantes com qualquer luz que lhe dava algum contraste, cabelos castanhos escuros e um nariz perfeitamente criado que chegava a chamar atenção. Ah, mas... Nunca saiu uma palavra do conjunto de seus dois lábios.

Michelle sempre fora considerada desde o primário, aquela garota mais bela de sua classe, plausível a quem quer que a reconheça. Acostumada por fim, com todos os homens aos seus pés, porém nunca se deixando apaixonar. Primeiro sinal de fraqueza de uma mulher, ela dizia. Pois sabia que nenhum deles iria lhe retomar algum benefício, mas que evidente nunca iria deixar de viver ou ter alguém por essa razão. Admitia gostar de ter sempre alguém fazendo tudo que ela pede ou deseja.

De qualquer forma, a “fila” de Michelle nunca parou de andar.

Cabelos longos e morenos, uma boca carnuda abaixo de olhos claros, em que nem mesmo ela sabia ao certo sua cor. Era verde, mas o contorno surpreendia ao se transformar em um azul celeste, magra, alta e esbelta. Desejável.

Julian ficou de dormir no quarto do irmão mais novo de Michelle, Lucas.

Lucas o adorou, afinal... Não era de falar muito e “encher o saco”, bastava-lhe sua irmã.

Julian sempre estava em sua cama, escrevendo ou ouvindo músicas, lendo bons livros. Um dia, Michelle passou no quarto olhando de relance e viu que ele lia Nietzsche. Ficou impressionada, por ainda existir homens inteligentes com uma mente tão aberta. Sempre educado, impressionava sempre a todos por não dar trabalho algum mesmo não tendo recebido educação alguma, além do orfanato.

Michelle nunca estava em casa, Julian a via da janela do quarto após avisar a mãe que iria para casa de sua amiga, e entrava em um carro com um homem mais velho.

Em um dia qualquer, céu nublado, iria chover talvez. Vivian pediu para que Michelle subisse ao quarto, e avisasse a Julian que o jantar estava pronto. Ela entrou, ele olhou para ela e ela fez um gesto terrível com as mãos em direção a boca. Ele entendeu, rindo, pensando que ela deveria achar que ele é retardado. Ela ficou lá, sem entender, e andou franzindo as sobrancelhas, quando deixou um dos papeis dele cair. Ela se agachou para colocá-los no lugar, mas a sua curiosidade não a deixou em paz. Ela ficou tentada a ler. Havia o seguinte:

“Fiquei sobranceiro a expor minha íntegra ventura, a quem eu mesmo não criava fantasias para chegar próximo de tamanho valor. Querido e admirável anjo a quem me resguardas, acordei e não o senti ao meu lado, onde fostes? Pois já se sucederam segundos, minutos e, por fim, passaram as intermináveis horas. Novamente me deixará só? Inconsciente, tomei um mergulho de minhas lágrimas. Não há luz, pois a que me era parte integral se foi.”

Michelle nunca havia lido algo tão bonito e ao mesmo tempo... Triste. Estava quase derramando uma lágrima emocionada; quando sua mãe gritou: “Michelle! Você não vai descer?” Ela levou um susto, e correu para descer as escadas deixando o papel cair.

No dia seguinte, quando voltou da escola. Viu um possível bilhete em sua cabeceira. Era o poema de Julia, e havia escrito mais:

Não haverá problema algum em ficar com este, se realmente gostou pequena curiosa. Nunca deixei ninguém os ler, foi um descuido meu só peço que não espalhe ou use para outros fins. Guarde-o, agora é de responsabilidade sua conservá-lo. Este outro fiz após ter estudado-a, espero não ter sido rude em tomar tamanha liberdade.

“Devo parar de acreditar nas pessoas.
Devo?
Dizem que a culpa está em minha “bondade”; Mas adianta ser bom diante do mundo em que nos apresentam?
Lêem-nos como bobinhos.”

Só espero que algum dia dê-me a chance de merecer sua confiança. [E assim, farei o possível para não decepcionar-lhe.

Michelle não dormiu aquela noite... Passou-a inteiro em claro lendo sem parar, cada palavra, para não correr o risco de esquecer cada seguimento, guardou-o em uma caixinha, trancando-a e escondendo-a atrás de suas roupas, dentro de seu guarda-roupa. Ela nunca havia encontrado alguém que teria entendido-lhe tanto em tão pouco tempo, sem nem ao menos terem trocado qualquer conversa; se ela merecia sua confiança, faria o possível para ele merecer o mesmo. Afinal, Julian sabia que poderia confiar nela mesmo informado –sem querer- do que ela dizia, em relação a “estranhos” em sua casa.

À tarde, ela saiu de seu quarto, e devagar se dirigiu ao do irmão, a porta estava aberta e ela tentou passar despercebida, mas ao mesmo tempo olhando para os lados; não havia ninguém, e então escutou a música da abertura do Balão mágico “Lindo Balão Azul” (Ah, Lucas) E um barulho na cozinha. Era Julian.

Ela entrou devagar, apesar de não fazer muita diferença, deixando em cima da cama onde Julian dormia o seguinte bilhete:

“Não posso deixar de informar que me encontrei decepcionada por você não mostrar aos outros este trabalho lindíssimo. Poderia te deixar famoso, se permitisse L Hahaha. Mas não há preocupação, estará aqui guardado como se tivesse trancado meu próprio coração.”

Michelle voltou ao seu quarto, vasculhou um de seus Lp’s até escolher “Abbey Road”- The Beatles.

Deitada na cama, os olhos fecharam-se e sem perceber apagou por uns 10 minutos, acordando assustada, olhou para os lados e viu um papel debaixo de sua porta, ela correu para abrir mas Julian já não estava lá.

“Sempre soube que você não era uma má pessoa, nunca errei em quem senti que poderia confiar, mas você, no momento que a vi, foi a índole mais forte que já me chamou a atenção antes. Você é uma garota especial, Michelle. Faz isso, com medo de decepcionar-se e sofrer, mas me impressiona já que és uma garota que gosta de correr tantos riscos.”

Ela devolveu por debaixo da porta dele, outro:

Venha visitar-me aqui, às 23h03min. Quando todos estiverem dormindo, quero vê-lo. Até parece que trocamos cartas por morarmos tão longe”

3

23h03min, Michelle pensou “Ele não vêm” E os próximos dois minutos pareceram-lhe 2 horas. Ele bateu a porta devagar. Ela abriu, e o puxou para dentro silenciosamente olhando para os lados. O olhou, e dirigiram-se a cama, para sentarem, ela acariciou seu rosto, estudando-o e ele sorriu. Pegou outro papel em branco na cabeceira ao lado e escreveu: (Sempre lhe parecendo que eles estão à longa distância para isso.)

“Você tem um sorriso lindo, Julian. Perdoe-me, mas prefiro e creio que o melhor é que mamãe ainda pense que não nos damos bem; se ela descobrir que estamos no falando muito ou que você vem ao meu quarto tão tarde, irá pensar bobagem, e meu pai não permitirá que fique.”

“Eu entendo, você sempre gosta de ter esse gostinho de está fazendo algo errado, não? Torna o momento melhor para você, mesmo que não estejamos fazendo nada de errado. Comunicamos-nos por cartas como se morássemos longe, ou até mesmo fingir que não nos conhecemos”

“Hahaha, pare de me decifrar. Além de sempre acertar, me mata de vergonha.”

“Suas bochechas ficam rosadas aos poucos, você abaixa a cabeça para disfarçar, mas não tem como não perceber pequena curiosa.”

“Eu tenho uma ideia. Faz tempo que não brinco de forca... Desde a 7ª série. Seria divertido”

Enquanto eles faziam esse “bate papo” passando o papel um para o outro, ela escrevia e ele não conseguia parar de olhá-la ou ela vice-versa.

Michelle pegou outro papel, desenhou um boneco de palito mal feito e borrado com uma borracha, escrevendo Cinco traços tortos.

Eles riam e brincava a noite inteira, ela ficara com muita raiva por nunca conseguir ganhar. Era incrível.

Ele escrevia: “Vai precisar treinar mais um pouco, pequena.”

Nessa brincadeirinha, Michelle ficou horrorizada, pois já eram 1h da manhã e ela devia ir para a escola no outro dia, aliás, mais tarde. Avisou isso a Julian, e ele assentiu com a cabeça, deu-lhe um beijo na testa e saiu do quarto devagar e cuidadoso com o barulho.

Na escola, Michelle estava mais sonolenta, passou a maioria das aulas dormindo ou escrevendo algo que ela não deixava ninguém ver. Ela estava mais pensativa também, distraída. Teriam que chamá-la três vezes, ou na 4ª gritando para ela perceber seu nome sendo chamado. Terminada a aula, todos foram embora apressadamente, menos Michelle, que continuava em sua banca, a professora perguntou-lhe se ela não iria acompanhá-los, apontando aos alunos, ela cobriu o caderno e disse que logo mais. Estava estudando o Código Morse, anotando toda a relação do alfabeto e ao lado como cada letra representava.

Ao chegar a casa, sua mãe ouviu atentamente o barulho da porta. “Querida? Chegou?” “Sim.” “Julian foi visitar as crianças do orfanato que morava. Já deve chegar para o jantar, vamos esperá-lo” “Ah, tanto faz. Vou até meu quarto.”

Subiu até seu quarto, passando pelo de Julian, seu irmão também não estava lá, tivera o visto na sala vendo qualquer desenho animado bobo que ele adora. Deixou o papel com todas as informações, pegou outro qualquer e escreveu:

Encontrei mais uma forma para nos comunicar. Devo achar que já a conhece, de qualquer forma escrevi para você. Tentarei estudar os gestos futuramente. Procuro cada vez mais uma melhor forma de conversar com você Julian, é sempre reconfortante. Obrigada. De sua pequena curiosa. xx”

Enquanto isso, no andar de baixo, Vivian preparava o jantar, e seu marido, pai de Michelle e Lucas, chegara mais cedo do trabalho. Carlos era um homem sério, quando preciso, pois é um pouco barrigudo, devido sua amada cerveja com os amigos numa tarde de domingo assistindo a um bom jogo de futebol.

Voltara-se a Vivian querendo lhe falar:

-Vivian, ouviu umas risadas à noite? Não sabia se ainda estava acordada, não quis incomodá-la então esperei por perguntar-lhe hoje.

-Sim, também pensei o mesmo. Mas achei estranho... Era a risada de Michelle.

-Estava com o garoto que você trouxe, não foi? Falei-te que isso não ia dar certo!

-Não querido, é lógico que não. Michelle nem ao menos se deu bem com Julian, apesar de ser um ótimo garoto, você sabe muito bem disso e achava que tinha me entendido, me conhece e não me arrependo em momento algum de ter-lhe chamado para morar conosco. Ela deveria está no telefone, não canso de reclamar isso. Quando vir a conta...

-É. Sobra pra mim, converse com ela.

-Certo.

-Eu vou tomar meu banho, o jantar vai demorar?

-Não, não. Julian já deve chegar do orfanato, e iremos jantar logo mais.

-Esse menino aqui... São mais despesas nas minhas costas. É cada invenção.

Ele saiu resmungando, indo em direção ao banheiro... –CADÊ MINHA TOALHA?

-PROCURE!

Vivian baixou a cabeça, respirou e suspirou forte com as mãos no rosto impaciente. Até que Lucas virou o rosto pra trás tirando a atenção de seu programa e olhou pra ela:

-Mãe, que cheiro é esse?

Era o arroz, que esquecera no fogo, correu até o fogão, apagou, mas não restava mais nada.

Agachou-se no chão da cozinha, com a cabeça em seu colo, segurando as lágrimas. Não era besteira por se sentir assim neste momento, não, seu marido não a tratava tão bem como antes há tempos. Mas não poderia o deixar... O que seriam das crianças? Teria que ser forte e manter a imagem de uma notável “família feliz”. Tão preocupada com o mundo, era Vivian, com as pessoas, em confiar-lhes, em tentar agradar... Até que mal lhe sobrava tempo para pensar em si mesma.

Enxugou o rosto e se levantou um pouco atordoada olhou para a sala, Lucas estava assistindo a TV, Carlos não tinha saído do banheiro ainda... Deve está pensando em alguma de suas putas já que seu corpo de meia-idade não o agrada mais.

Terminou o Jantar, e deixou a mesa posta. Foi ao quarto, tomou um banho, mergulhando a cabeça em água fria, precisava. Ao terminar, se dirigiu ao quarto do lado, de Michelle, bateu duas vezes.

-Filha? Posso entrar?

-Sim, mãe.

Vivian entrou, e fechou a porta rapidamente. Michelle aparentava precisar de um pouco de ajuda quanto ao vestido para atacá-lo atrás. Olhou para a mãe, e sorriu: - Uma ajudinha?

- Claro. Mas querida, precisamos conversar um pouco.

Falara Vivian enquanto atacava cada botão, Michelle estava distraída, pois ao mesmo tempo olhava para seu cabelo no espelho... O ajeitando. “Está ruim, acho que preciso cortá-lo, dar outra aparência”

-Michelle, me escute!

Vivian já chegara ao quarto com um discurso pronto, séria, mas logo que olhou para a filha e viu o quanto não a via tão feliz, preocupada até com sua aparência, sorriu.

-Pra onde você vai?

-A uma festa

-Por que não leva Julian consigo? É uma boa chance para se reaproximarem - Ela piscou o olho para a filha e ela logo entendeu.

-Mãe... Hahaha. Foram as minhas risadas ontem à noite, não?

-Disse a seu pai que estava no telefone.

-Você é fantástica! Mas... E se o pessoal tiver preconceito? Sabe como são aquelas pessoas.

-Seus verdadeiros amigos a entenderão. Você diz que não, mas tem um coração bom tão maior quanto o meu.

Michelle sorriu, e logo se viram abraçadas.

-Obrigada.

Quando Vivian se foi, ela correu para a parede:

-Vista s...ua melh...or roupa. Temos uma fes...ta.

-Perguntou-me se minha agenda estava livre?

-Sem graci...nhas. Não sei fazer ISS..o.

-Já estarei pronto.

4

A festa ocorria na casa de um dos amigos milionários de Michelle. Quando chegaram, Julian observava atordoado todas aquelas garotas seminuas, virando barris de cerveja, no canto da parede casais esperando a hora de um sexo explícito. E no fundo, um garoto com uma lata de coca-cola na face, ele não entendeu o pra quê. Quando foi tirada sua atenção, logo que Michelle gritou: “Audrey!”

Audrey era sua melhor amiga, e já havia contado sobre Julian.

- Um! Então esse é o misterioso Julian? Prazer em conhecê-lo, querido. Quer uma cerveja?

Julian balançou a cabeça que não sorrindo sem jeito.

-Certo. –E logo olhou para Michelle. – Bonito ein.

-AMIGA!

-Ok, ok.

Enquanto conversavam, Julian fez um gesto com as mãos para Michelle perguntando-lhe se ela ou a amiga queriam que ele pegasse algo.

-Ah! Eu quero sim, uma cerveja, obrigada Julian. Quer alguma coisa Audrey?

-Não, não.

Ele assentiu, e logo foi. Quando voltou para onde elas estavam, já não estavam. Julian franziu a sobrancelha, deixando a cerveja na mesa ao lado, e olhando para todos os lados. Lá estava Audrey conversando com algum outro garoto. Ele se dirigiu a ela, com um olhar preocupado.

- Ah Julian! Ela foi procurá-la.

O garoto a quem acompanhava Audrey, perguntou curioso: - Quem?

-Michelle

-Ah! Eu a vi indo a algum lugar com Anderson.

Audrey no mesmo momento arregalou os olhos. Julian percebeu sua expressão, e fez um gesto com as mãos perguntando-lhe quem é.

-Não o entendo querido.

Ele pegou uma caneta do bolso, e escreveu na toalha da mesa ao lado: “QUEM É?”

-O... Ex dela. Acho melhor irmos procurá-la, Michelle deveria parar de acreditar tanto nas pessoas. Ele no mínimo deve tê-la feito acreditar que ele apenas queria pedir desculpas por tudo e que fossem...

Antes de terminar a frase, Julian já estava com um andar apressado à frente.

-... Amigos?

E logo ela, e o amigo que conversavam foram atrás.

Julian corria estonteado com o som da música misturado às luzes em seus olhos, até que viu de relance uma mão atravessando até atrás da parede, ele percebeu que era ela pela pulseira que usava. Simultaneamente, a imagem da cena veio a sua cabeça, Michelle sorria pedindo que ele escolhesse qual das duas usaria.

Correu até lá, e ela estava com as mãos presas a quem ele supôs ser o Anderson a dele, juntos demais ele falava alguma coisa em seu ouvido... Ela enojava tentando se sair.

E quando Julian percebeu que voltou aos seus sentidos; o homem já estava no chão. Michelle correu para abraçá-lo pedindo que a levasse embora dali.

Chega a casa, e cada um infelizmente deve ir para seu quarto. Tenta-se não fazer muito barulho, Michelle já havia parado de chorar, os braços de Julian haviam reconfortado-lhe. Antes de deixá-la ao quarto, lhe deu um beijo na testa e com os gestos de suas mãos, disse-lhe que tudo iria ficar bem. Ela sorriu, mas com um olhar triste e entrou.

Os dois estavam deitados na cama, olhando para a parede, a única coisa que o separavam... Estavam tão pertos e ao mesmo tempo tão longe. Ele fez alguns toques, longos, curtos, e perguntou: “Está melhor?” “Sim, obrigada por tudo.” “Dorme bem, pequena. “Você também“ Eles dois então beijaram a parede simultaneamente não sendo proposital.

5

Ao amanhecer, estavam todos na mesa para o café da manhã. Michelle avisara que não estava se sentindo muito bem para ir à escola hoje, ninguém perguntou nada. Seus pais terminaram, e logo foram trabalhar e o ônibus escolar apanhou Lucas. Michelle ainda enrolava para comer mais, enquanto Julian lavava os pratos. Ele terminou se dirigindo a mesa, sentou ao seu lado apanhou um guardanapo e escreveu: “Tenho uma surpresa pra você. Quando terminar, vá ao seu quarto.” Ela sorriu, e assentiu olhando-o subir as escadas enquanto guardava o guardanapo em seu bolso.

Alguns minutos depois, abriu a porta e ele estava com seu violão sentado a cama, apontando para um papel a sua frente, ela sentou e o leu, havia o seguinte:

Espero que não se importe por eu ter pegado seu violão (Aprendi contigo, pequena curiosa, haha), mas o vi no canto e não resisti em tocar para você. Cante por favor, e sem dizer que há vergonha, pois adoro sua voz. “Com teus doces cantos e encantos. Canta a mim, pois aguardo o sussurro de tuas palavras, cantadeira.”

Quando ele começou a tocar as primeiras notas, ela deu um daqueles sorrisos empolgantes que ele adorava a respondendo com outro satisfatório de volta. E ela deitou na cama, com a carta na mão sem olhar para a letra, já a sabia de cor. No começo, cantava baixinho, mas logo perdia a vergonha dando uma certa entonação: “I love you, I Love you, I Love you! That’s all want to say” Olhava para ele acima, e sorria. E quando ela já estava no último verso “And I Will say the only words I know that you’ll undest...” Ele parou de tocar, colocou o violão cuidadosamente ao lado. Ela o olhou curioso franzindo a sobrancelha, ele tocou seu rosto e se abaixou para seus lábios encontrarem os dela, ela se virou um pouco (não que beijá-lo pela primeira vez e ainda de cabeça para baixo tenha sido boníssimo, mas estava ficando um pouco desconfortável) para permitir que seus lábios entreabrissem aos dele e surgissem movimentos delicados de suas línguas.

Ele a beijou com força, puxando-a para si. Acariciou-lhe os seios, seguindo os movimentos simultâneos dos seus lábios urgentes contra os dela, alternando entre sutis mordiscadas sobre a região de seu lábio inferior e logo prosseguindo a massagear sua língua. Ela apertou-o com mais força, sentindo uma excitação crescente, quase que insurpotável. Ao fazer amor, Michelle sentiu a coisa mais excitante que jamais experimentara: uma explosão primitiva e selvagem que os sacudiu a ambos. Após, ela ficou por um bom tempo nos braços dele, apertando-o contra si e sentindo uma felicidade que nunca julgara possível.

Eles ficaram então por um breve momento abraçado um ao outro, ela deitou a cabeça em seu ombro e ele acariciava seus cabelos com um sorriso satisfatório aos lábios, parecia para os dois que aquele momento era uma fotografia imaginável, não deveria acabar em qualquer circunstância. Foi Michelle que decidiu cortar o clima, quando do nada pulou dali virando-se pra ele, Julian tomara um susto, mas gostava quando ela ficava tão feliz do nada, por razão nenhuma. E disse “Sabe um lugar que eu sempre quis conhecer?” Ele balançou a cabeça, que não. “Barcelona... Acho tão lindo!” Ele sorriu, pegou em seu braço a puxou para perto dela, encostou a cabeça perto da parede chamando-a, ela foi com um olhar confuso. E ele deu toques nela, uns mais largos outros curtos para lhe dizer “Te seqüestrarei qualquer dia para irmos até lá” Ela respondeu da mesma forma, dizendo “Promete?” “É uma promessa”. Eles se entreolharam, e quando viram já estavam presos aos braços um do outro.

6

Já estava próximo do horário de almoço, Julian e Michelle prepararam antes que seus pais chegassem com Lucas. Para os dois, nada poderia se tornar entediante contanto que estivessem juntos. Julian se divertia com a distração de Michelle, e Michelle ria com a expressão de censura que ele fazia a ela. Sempre fora assim, ele tentava mostrar ser sério e ela sempre brincando com qualquer resquício.

Quando Vivian, Carlos e Lucas chegaram, a mesa já estava posta. Vivian ficou surpresa e simultaneamente satisfeita com tamanha dedicação de Michelle, nunca a viu tão disposta a fazer tamanho serviço e feliz. Carlos e Lucas pareceram nem perceber quem fez ou quem não fez, preocupavam-se apenas com a comida em frente e que deveriam degustá-la o mais rápido possível.

Enquanto comiam, conversavam a companhia tocou.

- Ah! Deixem que eu atendo. – Vivian indagou.

Ao abrir a porta, franziu a sobrancelha com um olhar curioso ao avistar a... Como é mesmo o nome?

- Bom dia! Mas que surpresa, a senhora por aqui. Aconteceu alguma coisa?

Meu Deus... O nome.

- Bom dia, Sra. Vivian. Desculpe interrompe-la em um horário impróprio. Mas sim, é importante, podemos nos falar aqui fora, a sós?

Lembrei!

-Não prefere entrar, Sra. Fible? Podemos ir à sala, todos almoçam.

-Não, aqui fora está ótimo, por favor.

Vivian sentiu seu coração palpitar mais rápido, sem um por quê. Estranho, pensou. Fechou a porta, e sem pressa logo perguntou:

-O que houve?

-É o pai de Julian.

-O pai de Julian? Não havia ido embora? Deixado a mulher?

-Sim, mas... Ele voltou arrependido.

-E precisou de 17 anos para se arrepender?

-Bem, eu não sei Vivian. Mas é o pai dele, e clama por seu direito de pai.

-Pai entre aspas. Pois pelo que eu sei, a única família que Julian teve foram duas: Com a senhora e as crianças do orfanato, e aqui onde está bem.

-Eu sei. Mas é o pai dele.

-Você está certa... Meu Deus. Mas estava tudo tão bem. –Vivian baixara os olhos, triste. Julian era o que essa casa precisava e tão pouco chega já vai embora. Ah! O que dirá a todos? O que dirá a Michelle?! Michelle...

-Ele disse que virá buscar Julian amanhã mesmo.

-Ele não é o pai dele! Nós o criamos, do que vale sangue onde há coração?

-Eu sinto muito, Vivian. Todos nós sentimos, as crianças do orfanato estão péssimas também.

-Você o pesquisou? É um bom homem? Como irá criá-lo?

-Olhe... Nós podemos lutar por que ele continue conosco. Conheço bons advogados que nos dariam até um desconto. Mas... Julian teria que concordar.

-Julian tem um coração tão bom, que esquece ou até não sabe que é o único com este tamanho. Ele não vai permitir que nós o obriguemos a não conhecer o próprio pai. Ele é louco para conhecer quem quer que seja da verdadeira família.

-Então, vai ver que o que precisam é de uma boa conversa. Bem, eu não vou mais tomar o seu tempo, e mais uma vez desculpe por chegar à má hora. Mas pensei que o melhor seria vir o mais rápido possível.

-Estava certa Fible, obrigada. Avisarei a todos agora mesmo, que estão aqui.

-Boa tarde, e rezaremos juntas para que dos males ao pior, ele esteja em boas mãos. E sim, quase ia me esquecendo! Qual o horário melhor para que ele chegue?

-Este mesmo, pois assim todos estarão.

-Certo.

Vivian sorriu, despediu-se, fechou a porta e logo voltou à mesa.

-Mãe! Já terminamos e você de papo. –Reclamara Lucas.

-Tudo bem –Ela sorriu sem graça - Perdi o apetite querido.

Todos a olharam, esperando dizer alguma coisa.

-Precisamos ter aquela conversa entre família, que não fazemos a um bom tempo.

Continuaram todos na mesma posição, fitando o olhar.

-Quem esteve aqui foi a Sra. Fible. O... Pai de Julian pretende vê-lo.

No mesmo instante todos olharam para ele, e ele confuso arregalou os olhos pegando uma caderneta de seu bolso com um papel, escrevendo nervoso em grandes e um pouco tortas saíram às letras: “O QUE?” Olhando para quem estava ao seu lado, Michelle.

-Julian... O seu pai. –Falara sem olhar em seus olhos, pois estava triste, mas tentava aparentar não estar, então sorriu sem graça.

Vivian continuou.

-Ele disse estar arrependido Julian, e agora preparado para conhecer seu filho. Virá aqui amanhã para buscá-lo.

Julian mais uma vez, escreveu no mesmo papel embaixo e Michelle leu em voz alta: “Vocês querem que eu vá?”

Veio então o coro “Não!”

-De maneira alguma querido. Todos nós, eu creio, não sabemos se ficamos felizes ou tristes, sentimento estranho e engraçado não? Mas, é o que você sempre quis. Então o que decidir, entenderemos. Queremos que você esteja bem.

Ele escreveu de volta e Michelle mais foi sua voz: “Vocês são a minha família. Eu queria conhecê-lo... Mas era quando eu não contava com ninguém. E vocês me acolheram então já não me sinto mais incompleto.” Ele saiu indo ao seu quarto.

Michelle quis ir atrás, mas Vivian pegou em seu braço - Deixe, ele precisa ficar só um pouco.

Silêncio.

-Mãe, eu não quero que ele vá. –Lucas o quebrou.

-Eu sei querido.

7

O resto do dia, não teve metade da animação que qualquer outro momento desde a chegada de Julian até segundos antes do comunicado da Sra. Fible.

Carlos voltou ao trabalho inconformado por não poder fazer companhia a Vivian, ela ficou feliz ao ouvir isso do marido. Lucas passou a tarde, sem muita novidade em frente à TV. E Julian foi ao orfanato ver as crianças, Michelle ligou para Audrey, pedindo que a levasse dali para qualquer lugar e a animasse um pouco. A casa estava mais uma vez silenciosa.

Michelle chegou um pouco tarde em casa, subiu ao quarto, passando pelo do irmão, olhou de relance, Julian estava sentado à cama, com a cabeça baixa e as mãos no rosto, pensativo. Ela procurou não incomodá-lo, passando direto. Abriu a porta, e havia mais uma carta no chão, ela agachou e abriu:

Não sei o que acontecerá amanhã. Não sei. Não tenho idéia de quem ele seja talvez uma boa pessoa, talvez não, poderá querer apenas me ver e depois ir, ou pedir para eu ir com ele. Mas sei Michelle, mas de uma sempre terei certeza, que aconteça o que acontecer meu amor não morre.

“Agora onde estás? Com teus doces cantos e encantos.

Canta a mim, pois aguardo o sussurro de tuas palavras, cantadeira:

Em nosso recanto. Agora onde estás? Naquele canto. Sorrisos embaçam meu rosto ao te ver.

Do que são minhas palavras, do que valem, quando não tenho você a me inspirar em dizer um pouco mais?

“Canta a mim, cantadeira.”

Não sei daquilo. Tenho certeza disto. E gostaria de saber apenas:

Quando sua faísca virou fogo? E quando seu calor virou desejo?

Eu te amo. Mas isso não é um adeus.

Julian.

Ela fechou a carta, enxugando uma lágrima despercebida ter molhado seu rosto. Sentou a mesa, e começou a escrever:

Não sei o que fiz para merecer tanto, deste jeito... Você só permitirá que eu te agarre o braço e não deixe você partir, acontecendo o que acontecer. Não vou dizer que quero que você vá, pois não quero. Mas não posso dizer isso, conheça-o, eu te peço, pois foi o que você sempre sonho. Mas prometa voltar, prometa não me deixar. Pois se tu és meu ar, irá haver pouco para eu respirar. E se queres me deixar com mais receio em resposta as tuas doces palavras, darei ao troco.

“Dois corpos ardem em chamas ao sentir tão próxima presença.

Hesitam subitamente, pois não podem saciar este desejo. Não se permite, na verdade, nutrir este sentimento em conjunto, apesar de se amarem.

Amar sem razão, sem pensar que há fim... e não há! Estarão sempre juntos, mas não perto um do outro. “Não sabem por que, mas o fazem, pois se amam o suficiente para não permitir que o sentimento se afogue.”

Eu te amo.

Michelle, your belle.

Ela então deixou lá, voltando ao quarto. Deitada a cama, olhando para embaixo da porta, se perguntando se havia mais, até quase pregar no sono encostada a parede ouviu o código, ele lhe dizia “Boa noite, pequena” Ela então sorriu já adormecida.

8

13h00min

O pai de Julian se chamava José, sendo atendido entre amigos apenas por Zé. Quando chegou à casa dos Shaffer aparentemente percebeu-se que ele tentou mostrar-se apresentável a todos, porém ainda um pouco desajeitado, a gravata fora do lugar - Detalhe que só Carlos percebeu- Uma pequena mancha de Café na gola da camisa (Vivian viu) E as roupas não eram de marca alguma (Michelle) Para Julian... Ele podia não ser exatamente como o sonhava, mas passou a ser agora.

-Sente-se, por favor, senhor José, e permita-me pedir que almoce conosco.

-Oh Sim! Obrigado senhora...

-Vivian, é um prazer.

-Sim, Vivian! –Ele não parava de olhar para Julian, nem Julian a ele.

-Olhe, eu queria deixá-lo logo informado que Julian dá muito... Amor a essa casa. E que ele foi criado aqui não como um órfã, mas como um filho.

José comia rapidamente e sem controle. Parecia que tinha saído da cadeia.

-Ah, sim! É muito bom saber disso, eu sempre quis muito conhecer meu filho. Fico inconformado por não ter tido convivido nas melhores épocas. Porém... O destino foi quem escolheu assim. Eu não tinha condições de dar uma vida a mim mesmo, quanto mais a um filho. Então preferi me estabelecer até poder procurá-lo, rezando para que ainda estivesse –Que Deus me guarde- vivo.

-Fico feliz em saber disso. E Julian sabe que se precisar, qualquer coisa nós estaremos aqui e nunca o esqueceremos. Dependendo de sua decisão, ele estará bem onde achar que deve estar.

-Ele só estará bem aqui. –Michelle impõe-se.

-Michelle!

-Desculpe, continue Senhor José. –Ela deu um sorriso não muito simpático a ele.

-Bem, eu nunca o tiraria de um lugar que já se acostumou e se enquadrou. Moramos longe, mas ele poderá vir aqui todo fim de semana, ou até mesmo quando quiser. Só não tenho certeza que estaremos sempre amigos das despesas se ele quiser vir contantemen...

-Oh! Nós cobrimos o necessário. –Michelle mais uma vez.

-Querida, chega.

Ela se calou.

-Não imagina o quanto ficamos felizes em ouvir essa notícia.

-Ora que isso Vivian, eu só preciso de um tempo para conhecer meu filho, mas claro que nunca faria isso com ele. Sei que deve ser estranho no começo, mas tenho certeza que as coisas irão se ajeitar.

-E então Julian, você está de acordo, deste modo? –Vivian indagou

Ele balançou a cabeça, dizendo sim.

-Devemos então falar com algum advogado seu, para alguma autorização de que irá está de acordo com a vinda de Julian aqui por dias alternados?

-Ah, não! Não vamos envolver isso... O que é Senhora Vivia, não gostou de mim? Achei que nos demos tão bem e eu passei minha confiança. Vejam bem... Como disse, ainda estou estabelecendo minha vida, não tenho dinheiro para essas bobagens.

Vivian hesitou e ele a olhou mais uma vez.

- É certo. Bobagem.

Julian se despediu de todos, mas o abraço mais forte foi em Michelle. Deixando-lhe um papel em sua mão discretamente.

Quando saíram, ela o abriu:

Nunca se esqueça, que sempre a amarei pequena curiosa. Julian.

Ela apertou forte o bilhete em seu peito, prendendo uma lágrima.

Um mês se passou.

Julian não voltou.

9

Michelle culpava a todos, e principalmente descontando a maior raiva na mãe, dizendo que a culpa era dela, por ela não ter pegado nenhum telefone, por não ter envolvido nenhum advogado, que tipo de mãe afinal é essa.

No outro dia acordou, mais um dia afogando em suas próprias lágrimas. Estava acostumada, chorou todos os dias, desde a partida de Julian, sim Um ano para não chorar mais nenhum em sua vida. Por isso, este dia, foi diferente, ela enxugou seu rosto, correu a escrivaninha e redigiu o seguinte:

Eu o vi esta noite. Daquele mesmo único modo, que consigo: Sonhando.
Estavas belíssimo. Beijavas-me com uma paixão... Intensa. Caloroso, entusiástico e impetuoso.
Era tão real que cheguei a pensar se estava mais uma vez junta as minhas fantasias. Meus devaneios.
Cada detalhe... Suas mãos tocando levemente a minha, seu olhar desesperador ao encontro dos meus.
Eu e você, mais nada a atrapalhar. Finalmente te encontrei.
Ao acordar, uma grande aflição acompanhada de opressão e tristeza abraçou-me. Indefinível era quem/o quê me tirou as forças para levantar.
Minhas lágrimas saltavam involuntariamente. Tentei voltar a dormir, a te encontrar mais uma vez; nada aconteceu. Com meus olhos já inchados, optei pela desistência.
Encontro-me aqui, de volta à realidade: Sem você para acompanhar-me.
Se só te tenho em meus sonhos, porque insisto em te querer?
Quero-te tanto, e ao te ter por te querer, é do jeito que não quero te quer: não o possuo.
Sonho com o irreal e sou egoísta por achar o impossível mais atraente... Que ser humano escárnio. Tire-me todas as minhas emoções.

Se Julian não voltava para vê-la, ela então precisava dizer-lhe de qualquer modo como se sentia como ele foi capaz de deixá-la daquele jeito. Colocou em um envelope sem remetente e endereçado, como sempre o faziam para mandar estas cartas um ao outro. Pegou uma mochila, abriu seu guarda-roupa colocou a caixinha onde guardava as cartas de Julian, algumas roupas, pouco dinheiro que juntara e saiu quando não havia ninguém em casa, evitando despedidas, pois odiava. Ela precisava fazer isso, por ela, por eles, e por tudo.

Só falaria com uma pessoa: Sua mãe. Só estava ela em casa, ela desceu as escadas com a mochila nas costas, e Vivian a olhou com repreensão.

- Então é essa a solução? Ir embora? Deixar-nos?

-Mãe, por favor. Eu sei que não tenho sido muito compreensiva esses dias... Mas queria que a senhora me entendesse, deixe-me conversar; se estou aqui, agora falando com você antes de ir é porque confio, e preciso.

Ela a olhou, sem acreditar, respirou fundo e respondeu-lhe: - Diga.

-Eu estou grávida.

-O quê?!

-E vou embora. Meu pai me deserdaria se soubesse de uma filha grávida sem ser casada. Eu vou viver minha vida longe disso tudo, eu preciso me libertar do ar de toda essa cidade, pois tudo está poluído com suas lembranças. Por favor, me entenda. Eu não vou abortar, é um pedaço dele em mim.

- Venha a cá –Ela abraçou Michelle forte e disse- Apenas nós duas sabemos que diante de qualquer discussão que tivermos, mesmo que repentina, no final fico feliz por você saber que sou eu quem deve contar. Então, se é assim que queres... Será assim. Fingirei que nada sei, e te mandarei dinheiro para onde estiver. Mas terá que lutar, vai quebrar a cara, vai erguê-la novamente. Mas sabe que se for, foi. Não sabe?

- Eu sei. E sentirei sua falta, me desculpe. Desculpe-me.

- Não, eu nunca vou perdoar-lhe.

- Eu entendo.

-Mas sempre vou amá-la.

-Eu também.

-Agora vá logo, pois odeio despedidas.

-Elas me enojam.

E assim se despediram, e Michelle caminhou até a estação.

Pegaria quantos trens fossem necessários para chegar a Barcelona, não fazia idéia de como viveria lá, do que viveria como sobreviveria. Só que iria. Não havia medo, nenhum, pois levava consigo uma parte dele. E isso lhe dava forças. Olhou para o horário da chegado do trem, restavam algumas horas, quando avistou um carteiro pegando algumas cartas da caixa de envelopes, para as cartas serem mandadas. Ela esperou ele sair, e foi até lá, pegou da bolsa seu envelope em branco com a mensagem dentro a Julian. Por nenhum segundo, achou está louca por está mandando uma carta em um envelope sem remetente, mas a verdade é que Julian não estava longe, ele nunca estava para ela mandar. Então pra quê saber de seu endereço? Ele iria ler e ela sabia disso. Colocou-a lá.

Seu trem chegou. Ela partiu.

10

Barcelona 1984.

-Queria ter conhecido papai, mãe.

Foi quando Michelle não sabia se sorria ou impressionava-se. Mas sorriu, pois ora, quem é seu pai? De alguém inteligente, deve surgir uma espertinha.

-Hora de dormir, mocinha.

Michelle cruzou os braços envoltos das pernas da criança, e a colocou na cadeira de roda, levando-a até o quarto e deitando em sua cama.

-Boa noite, pequena. –Falou dando um beijo em sua testa.

-Mãe não fica triste, tenho certeza que papai sabe que você sente sua falta e que deve ter acontecido alguma coisa.

-Éramos muitos novos, amor.

-Não há idade para isso.

-Está bem hein, chega de livros de romance garotinha.

Apagou a luz do quarto, e voltou a seu. A caixinha ainda estava lá aberta, pois Bianca olhara curiosa, claro, as cartas de Julian. Mas havia algo que Bianca não poderia achar, Michelle arrancou o chão da caixinha, havia algo embaixo, era uma reportagem.

Morto em silêncio.

Órfão de 17 anos, após deixar sua família que o adotara com muito amor, voltou aos braços do pai na esperança de que realmente o esperou por 17 anos para finalmente estabelecer a responsabilidade de ser um bom pai. Entretanto, foi apenas um objeto de vingança à mulher. Julian Shaffer esperou 17 anos por um pai, e um pai esperou 17 anos por uma vingança. Ninguém ouviu seu grito, seu desespero, pois como é possível já que as cordas vocais do garoto nunca lhe deram permissão desde que nasceu? É encontrado restos de seus corpos queimados, e não se sabe hoje onde o pai está. Passeatas gritam por justiça na frente do parlamento, todos os dias, e nenhum deles os escuta. Dona do orfanato, Sra. Fible, encontra-se também desaparecida, suspeita de envolvimento com o assassino José Freitas, por ter sido usada para dar confiança a família quanto ao sujeito.

Michelle acende um cigarro, e com o isqueiro queima a reportagem, a fim de que a única coisa que quer deixar em suas lembranças seja o que Julian deixou de bom a ela.

Reserva para a loucura

Perguntava-me o que faltava para nós dois, se te quero tanto porque não me sentia completa ao te ter? Fazes-me tão bem... Tu és doce, frágil, carente e querido.
Meu achado, meu carinho, meu sorriso.
Mas a perfeição soa tão imperfeita às vezes.
Que me apaixonei mais uma vez ao momento em que...
Nosso amor virou insano. Em que você errou. Em que nós erramos.
A vida teme às vezes em nos mostrar da pior forma... Algo tão simples, mas seria ela a única que me faria ter certeza que és o único a quem tanto irei querer.
Minha dúvida, meu medo e minha incerteza irão acabar com algo tão certo.
Por ser certo.
Quando? Ora, eu nunca irei decidir algo que está nas mãos do tempo.
Tempo! E o homem ainda um dia achou que poderia dominá-lo.

Meu achado


Agora onde estás? Com teus doces cantos e encantos.
Canta a mim, pois aguardo o sussurro de tuas palavras, cantadeira:
Em nosso recanto. Agora onde estás? Naquele canto. Sorrisos embaçam meu rosto ao te ver.
Do que são minhas palavras, do que valem, quando não tenho você a me inspirar em falar um pouco mais?
Canta a mim, cantadeira.

Briga dos arcanjos



Uma guerra mesmo que “clichê”, porém o termo é preciso: Escuridão contra a luz. O bem e o mal. Para quem não acredita na ordem dos caos, o padrão difere-se. Os anjos azuis, não estão mais piedosos como antes... Crianças como o definem. Há limites até para aqueles recheados com muita bondade. Anjo vermelho-sangrento, como imaginável, não aceitará regras.
Que comece!
O ciúme briga com a culpa, e logo então a raiva o ajuda, deixa-o mais forte. Aniquilou a culpa. E agora, o que lhe resta? Aniquilação de si mesmo.

Romantismo Clichê



Opinas pelo amor mais romântico? Vou contar-lhe a meu ver.

Dois corpos ardem em chamas ao sentir tão próxima presença.
Hesitam subitamente, pois não podem saciar este desejo. Não se permite, na verdade, nutrir este sentimento em conjunto, apesar de se amarem.
Amar sem razão, sem pensar que há fim... e não há! Estarão sempre juntos, mas não perto um do outro. Não sabem por que, mas o fazem, pois se amam o suficiente para não permitir que o sentimento se afogue.


Quando sua faísca virou fogo? E quando o seu calor virou desejo?

Silenciosa e escura contrição


Atordoada em meus pensamentos, dói profundamente. Pecado, no momento sempre tão: “Ora, Por que não?” (Expressão visivelmente irresponsável) E então: Reservo meu arrependimento. Sozinha em intensa reflexão, não há barulho... Interrupção.


Não tão querida consciência, tenho absoluta certeza de poder contar-lhe meus segredos para serem eternamente guardados, trancados a uma enferrujada fechadura.
Hoje será apenas eu e você. Sabes tanto de mim, e eu tão pouco de ti, por que me atormentar? Nem a loucura quer acompanhar-me para me fazer acreditar que nada se passam de falsas lembranças, nada ocorreu.


Entretanto, em meu ato de esquecimento não estarei em convivência aos meus erros,
Puros e inocentes erros, criança boba.
Afinal, poderia chegar a cometê-los mais uma vez. Mas aquele louco que consegue mandar em sua própria mente e então gritar ao dizeres “falsos!” Ser ouvido.
Não há peso.
Meus dedos cansaram, nem mais um trago. Neste momento, papel e caneta será melhor companhia para meus segredos do que ela, a impertinente e perseguidora.

Dance, bailarina



A bailarina gira em torno de si sem parar.
Com a ponta do pé erguida, acompanhando uma única lágrima orgulhosa.
Chora, pois, se bailarina tropeçar não a ninguém para segurá-la.
Bailarina está só. Mas não, ela não parou de dançar. O show precisa continuar.
Bailarina, dance.